quarta-feira, 13 de junho de 2012

Adoção

Olá,

Recebo muitas matérias sobre adoção e sempre penso em colocar  textos sobre o assunto aqui, mas acabo nunca colocando, pois elas são em geral estatísticas, tratam o processo de forma tendenciosa ou são acusativas. Muitas informações eu até acho interessantes e importantes, mas em geral me deixam com um gosto amargo na boca.

E então hoje recebi o texto abaixo.

Um texto leve, bonito e interessante, que toca nuances profundas com delicadeza e sinceridade. Gostei muito e gostaria de compartilhar com vocês.

Espero que vocês gostem.



Atitude adotiva
A naturalidade da adoção
Publicado em 11.06.2012, às 08h05

Por Guilherme Lima Moura
É natural que os casais, a certa altura da vida comum, busquem na gravidez a realização do tornarem-se pais. Com “natural”, quero dizer o comum, o frequente, o socialmente esperado. Tudo à nossa volta conspira para que seja assim. Afinal, todas as nossas convenções culturais nos definem como pais que se constituem enquanto tais pela procriação. Crescemos e vivemos sob a crença tacitamente partilhada de que a gravidez é o processo pelo qual alguém se torna pai ou mãe.

A naturalidade da filiação é assim (socialmente) definida em termos biológicos.

Entretanto, como é sabido, algumas pessoas possuem configurações biológicas que terminam por tornar a gestação uma impossibilidade. A fecundação não chega a ocorrer ou, ainda mais doloroso, a vida intrauterina é abruptamente interrompida. Para muitos, é nesse contexto que surge a opção de se buscar na adoção a realização da filiação tão almejada. E é aí que alguns se deparam com um tipo de mal estar. Paira sobre eles a sensação de que recorrem a uma espécie de “plano b”. Angustiam-se na culpa por buscarem na adoção uma alternativa de “segunda classe”, só cogitada a partir da falência dos planos iniciais em torno da gestação.
Falo aqui especialmente a estes que vivem essa condição de “limbo paterno/materno”: sofrem o luto por uma expectativa de filho que não chegou a se realizar e, ao mesmo tempo, consideram que este filho talvez possa já existir e estar a um passo de, através da adoção, chegar-lhes aos braços cheios de amor.
Nesse contexto de emoções ambíguas, que oscilam entre a dor e a esperança, o tempo e o diálogo franco são os grandes companheiros. Etapas não devem ser queimadas. O luto cumpre o importantíssimo papel de não transformar esperança em precipitada fuga da realidade. Isso porque é fundamental entendermos que o filho adotivo não deve surgir em substituição ao filho biológico. Todo aquele que (em qualquer contexto) é desejado para ocupar um lugar que é de outro, corre o risco de nunca ter seu próprio lugar, de nunca poder ser quem é, de nunca atender às expectativas que lhes são cruelmente impostas. Então, esse “outro” precisa morrer também na nossa emoção, para que aquele que agora passamos a desejar tenha direito ao seu próprio lugar afetivo nas nossas vidas.

Em que consistirá, então, realmente a naturalidade da filiação?

A esta altura os leitores desta coluna já estão cientes de que o significado da adoção, que aqui anunciamos, é maior do que tão somente a especificidade de determinado tipo legal de constituição familiar. Como temos dito, a adoção é a via de construção da filiação. É um processo relacional e afetivo que ocorre historicamente através do cotidiano. Como processo relacional, ele é uma via de mão dupla, ou seja, pais adotam filhos e filhos adotam pais. É preciso que tal circularidade ocorra para que a relação afetiva se estabeleça. E isso acontece na convivência de modo especial e único para cada família.

Entretanto, essa construção afetiva inicia-se antes mesmo de dar-se o primeiro encontro. Antes ainda de pais e filhos se conhecerem. Ela nasce na expectativa, no crescente desejo que alimenta previamente a predisposição amorosa dos futuros pais. Surge mesmo da necessidade que estes elaboram de terem, junto a si, aqueles a quem devotarão o melhor dos seus amores e cuidados. Surge da necessidade de termos filhos.

É importante entendermos que nem sempre a preferência prévia pela filiação adotiva implica em um olhar natural para a adoção como experiência de filiação. Às vezes, ela surge de um mal entendido, no qual este “sempre quis adotar” é fruto de uma intenção aparentemente caridosa de “salvar crianças”. Eis um grande equívoco! Se quisermos contribuir com o bem estar de menores em situação de risco, podemos nos engajar em inúmeras ações valorosas que existem à nossa volta. É uma bela iniciativa. Mas a paternidade e a maternidade não devem constituir-se numa experiência baseada em troca, do tipo “hoje eu salvo você, amanhã você me salva”. O amor de pai e mãe é um amor que nutre tão somente a expectativa de que os filhos sejam felizes.

Portanto, a construção da filiação adotiva como uma alternativa à gestação não faz da adoção uma escolha menor. Na realidade, respeitado o tempo do luto, tal decisão revela o entendimento maduro de que a naturalidade da filiação ocorre no afeto, ou seja, na adoção! Quem se torna pai ou mãe pela adoção deseja simplesmente ser pai ou mãe, e entende que a adoção é um meio legítimo de realizar este seu desejo.

Meus filhos são meus filhos façam o que façam, sejam o que sejam. E assim o são somente porque eles e eu assim o desejamos e assim o fizemos ser. Isso é adoção. Natural assim!
*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10



8 comentários:

Mima disse...

Realmente um texto leve e nos leva a refletir olhando por outro ângulo a adoção!!

bjos,

Lidi disse...

Ótimo texto... há dois casos de adoção na minha família e encaramos tudo com naturalidade e muito, mas muito amor mesmo.


Bjs.

Anjinho disse...

é amiga, mas, sinceramente adoção pra mim seria sim um plano B.
Sei q seria capaz de amar um filho adotivo tanto quanto um biológico, entretanto, existem coisas q a adoção ñ nos proporciona q é a gestação, q é vê aquele serzinho tão lindo crescer dentro de vc.
Até pq em nosso país é quase q impossível se encontrar um bb recém nascido p/ se adotar, pois o próprio governo esgota todas as possibilidades de deixar a criança com alguem da familia, só qnd ñ se tem mais jeito é q se opta pela adoção e nisso tdo o possível pai adotivo acaba perdendo muitas fases na vida da criança.

Claudia Martins disse...

Muito bom o texto, e impressionante como as vezes leio coisas que parecem que foram escritas para mim. rs
Bjs.

Jack Machado da Silva de Aragão disse...

Estou inciando o processo de adoção juntamente com meu marido, e digo que não foi uma decisão fácil... Levei 6 anos para aceitar o luto de não poder engravidar (tenho menopausa precoce) e pela primeira vez vi alguém se referir ao sentimento de perda da oportunidade maravilhosa de gestar um outro ser humano como luto, pois este sempre foi meu sentimento em relação a isso, desde o primeiro dia...
Agora acho que estamos prontos, digo que acho pois na maternidade e paternidade "por vias normais" existe essa mesma insegurança, vejo em minhas amigas o mesmo medo que sinto em relação ao tão desejado filho.
Pouco me importa que seja branco, preto, amarelo ou colorido... O que quero, queremos, é uma criança para amar e completar nosso lar, pois depois de quase 10 anos de casamento sentimos a falta de mais alguém em casa para dividir e multiplicar o que temos.
Foi muito legal ver este post hoje, pois a Assistente Social do Fórum da Comarca de Sombrio SC, vem justamente hoje em nossa casa, para primeira visita, para ver como somos em casa.
O processo de adoção é longo e burocrático, e para que tivéssemos essa visita passamos por a juntada e entrega de todos documentos no Fórum e aprovação do Juiz que somente irá deferir se estamos aptos a participar do curso de pais após a visita da Assistente Social.
Hoje estou com medo, pois não sei como receber essa pessoa que vem na minha casa nos avaliar e que vai formular um parecer ao Juiz de como somos... o que será que ela observa? Será que nossa casa vai parecer acolhedora suficiente?
Penso nesses momentos, que se eu fosse "normal" nada disso aconteceria, pois simplesmente deixaria de tomar a pílula e pronto, assim como aconteceu com minha irmã e minhas amigas...
Mas fazer o que... logo mais a Assistente Social virá e vou enfrentar o momento com coragem e fé de que tudo dará certo.

rosana disse...

oi querida isso relmente é um gesto lindoooo....ja fiz isto de ir na vara juventude e infancia ja deixei meu nome la,,mas não me chamaram...,ja visitei orfanatos e sai de la chorando em ver tantas crianças...e como isso é burocratico meu Deus...a gente só que amar essas crianças...eu sei existem pessoas maldosas,mas pra isso é só investigar nossa vida né..deveria ser td mais facil,mas não é...pra quem está prestes a conseguir...que Deus abre mais o caminho...e nós em nossos ventres..que possamos gerar..bjs querida...fik com Deus

Maqueli Foresto disse...

Oi florzinha, passei para agradecer a visita e desejar um ótimo dia! Muito interessante a matéria sobre adoção! Bjkas

Dalila disse...

Obrigada pelos comentarios!

O texto fala um pouco do que temos que pensar ao andar um pouquinho nesse caminho. Como a Rosana disse, é muito burocrático e isso afeta os dois lados - pretendentes e crianças nos orfanatos. Também não podemos esquecer as mães que doam suas criancas ou que perdem a guarda, mas acho que deveria haver uma forma de esclarecer melhor que quando não há condições de criar essas crianças, é possível dar um futuro à criança ao entrega-la a adoção. Não é tão fácil, o caminho é longo e difícil para todos os envolvidos, creio.

Bjs