segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Adoção

Sobre a bebezinha no abrigo:

Nos apegamos muito a ela, fomos visitá-la por mais ou menos 3 meses, vimos ela aprender a sorrir, a reconhecer as pessoas, etc. Começou com algumas visitas, virou uma possibilidade, dai uma espectativa, uma esperança e no fim decidimos meter as caras.

Entre idas, vindas, visitas ao fórum e consulta a alguns advogados (um advogado me falou que desde a nova lei, ele, que era especialista em adoção, não conseguiu absolutamente nenhuma adoção), agora, pela nova lei, a criança precisa ficar com a família e só em casos raríssimos (abusos severos ou sexuais recorrentes) ela é realmente destituída (isso me falaram no fórum).

Então, em geral, os bebês não são mais entregues para adoção.

Essa é a realidade dessa nova lei. Ou você adota crianças acima de 8 anos, que já foram e voltaram da casa da família um milhão de vezes, ou você espera o fórum fazer todo esse trâmite e depois de meses, não ter ninguém mesmo para ficar com a criança e te ligar.

Não adianta ir nos abrigos, a não ser que você queira realmente a adoção tardia. Os pequenos (todos) quer estão lá, estão num limbo administrativo e burocrático esperando a justiça se lembrar deles. Se você souber de algum abrigo com bebês e que há possibilidade de adoção, me avisem, por favor.

Como os bebês não pararam de nascer e ser doados (ou jogados na lata do lixo, como está ocorrendo cada vez mais - e tenho minha teoria sobre isso), muitos adotam 'à brasileira', em que o marido da pretendente diz que o bebê é dele, e assim pede a guarda. Não julgo absolutamente quem faz isso, mas não tenho coragem de fazer isso.

Bem, não consegui escrever sobre a bebezinha no fim. Ainda é sensível demais para mim. Realmente fiquei gostando muito dela, enxerguei ela como minha filha mesmo, estava planejando colocar o berço no nosso quarto...enfim...isso já foi há vá vários meses e ainda não dá para falar não. Só posso falar que tentei fazer o negócio legalmente e obvio que não virou.
Esse negócio de adoção me irrita demais, pois é um negócio embrulhado em celofane e desenhado em cima de uma realidade suíça, em que a prioridade é a bela entrega para a familia - a mesma família que abandonou, maltratou, que mora na favela, com outros 8 filhos dormindo no chão, sem escola, saúde, com mortalidade infantil alta, cujos filhos estão aos 5 anos estão nos semáforos pedindo esmolas, aos 12 estão perdidos no crack ou, no caso das meninas, parindo o primeiro filho.

Mas na bela letra da lei, alguns conselhos servem para resolver tudo e converter a realidade e as mulheres conseguem criar suas dezenas de filhos e parir mais um por ano. Não podem mais entregar no hospital (o famoso intuito personae - extinto com essa nova lei, mas que permitiu que praticamente todos que conhecemos adotassem seus filhos recém-nascidos e os criassem como filhos mesmo, sem problemas, dramas, etc.), têm que falar com a justiça, o fórum, fazer aconselhamento e procurar um parente para ficar com a criança...(muitas dessas mães não querem ser descobertas, pois ou o pai é casado, ou não é o companheiro dela, ou é adolescente, enfim, então um impasse aparece). Antes, bastava entregar para alguém na maternidade. Desculpem-me aqueles inspirados na lei, mas o negócio funcionava assim e muito bem, obrigada. Temos centenas de exemplos para usar.

Antes era possível efetuar o cadastro em inúmeras cidades, e assim encurtar a espera. Com a nova lei, isso não é mais permitido, com a idéia do cadastro nacional. Na prática, cada um só pode estar na fila de sua cidade. As crianças só vão para o cadastro nacional quando ninguém quis ficar com elas, o que significa que são em geral crianças bem maiores (adolescentes ou pré-adolescentes) ou com problemas de saúde graves, o que demanda preparação especial dos pais.

A onda da vez é dizer que só existem crianças maiores para adotar, e aqueles que não as desejam, não são dignos de estar na fila. De novo, a única coisa que ouço na mídia e leio na net é que os pretendentes são preconceituosos e racistas, e por isso a fila não anda. Ninguem cita o excesso de burocracia, a falta de profissionais nos fóruns, a falta de estrutura na imensa maioria das comarcas das cidades pequenas e o tempo que passa até a destituicao. Nas minhas visitas a abrigos, conheci adolescentes que entraram nos abrigos aos 2 dias de vida e estão lá até agora, com 16 anos. Muitos entram muito pequenos e o abrigo torna-se a única família que eles conhecem.

Gente, não estou fazendo aqui uma propaganda contra a adoção tardia. Acho que quem tem a capacidade de receber crianças maiores, e estão preparados para abraçar tudo que elas passaram e que ainda tem na memória, tem mais é que adotar mesmo. Sou contra a propaganda e a massificação da idéia de que se a pessoa quer adotar, obrigatoriamente tem que adotar uma criança mais velha, pois é só o que tem, e se quiser tem que ser assim. Isso pode gerar muitas frsutrações para os dois (pais e filhos), trazer conflitos para os quais as pessoas não estavam preparadas e pior de tudo: fazer as pessoas adotaram por peso na consciência ou por caridade. Isso é a receita do desastre. Caridade, altruísmo, piedade não duram para sempre e não perduram quando os problemas do dia a dia baterem na porta: brigas com os outros filhos, conflitos pela rejeição, uso de drogas (pode acontecer com qualquer um - biológicos ou adotivos, mas se a base da adoção foi caridade, essa possibilidade vai acabar com as boas intenções), enfim, acho temerário achar que só dizer para as pessoas que a vida é bela, que as crianças são lindas e que é preconceito não adotar os adolescentes para resolver o problema dos abrigos.
O real problema dos abrigos está na falta de estrutura do Estado em querer de verdade resolver o problema do abandono e maus-tratos logo cedo, da obrigação de resolver com muita agilidade o processo de destituição e adoção de bebês (e parar de querer achar assistentes sociais para visitar todas as 16 tias de cada criança, como se tivéssemos dezenas desses profissionais em cada cidade), parar de devolver e devolver a criança para a família até ela crescer, fazer a destituicao realmente e não deixar as crianças crescendo nos abrigos sem definição, etc.

Outra coisa: as expectativas, sonhos e esperanças dos pais tem que ser considerados. Os pais só serão bons pais, pais de verdade, se realmente desejarem aquele filho como se fosse seu, sem diferença de um filho biológico. Não gosto da máxima de que só as criancas merecem famílias e que as famílias têm que existir só para lhes prover um lar. Somente pais capazes de sonhar com seus filhos, de recebê-los como em seus sonhos, serão bons pais. E então essa criança terá uma família. Isso implica em deixar os pretendentes sonharem com bebês, se for o caso, sem força-los a mudar completamente de opinião e adotar dois adolescentes. O mesmo vale para aqueles que colocam na ficha crianças maiores, e que recebem bebês. Muitos já passaram pela experiência da parentalidade e não tem o sonho de viver os primeiros meses ou anos. Mas, sabem, já ouvi falar de vários casais que colocaram na ficha crianças de 5, 6 anos e recebem bebês. E aqueles que estão na fila por bebês não os recebem...

Enfim. Adoção no Brasil é uma caixa-preta. Você não sabe sua posição na fila, não pode saber quais as criancas estão à disposição para adoção, não pode visitar abrigos, não tem a menor idéia do andamento da fila, nem das possibilidades legais de sua condição de pretendente.

Foi depois de conhecer tudo isso que resolvi voltar a fazer FIV, um projeto que já estava adormecido e quase esquecido. É o meu foco e minha esperança agora.

Já li sobre pessoas que adotaram e que não se conformam com o sofrimento que as pessoas se sujeitam em fazer FIV, sendo que tem tantas crianças abandonadas por aí. Foi isso que me fez entrar na fila. Mas tive o azar-mor de entrar na fila no exato mês em que a nova lei começou. Hoje, dois anos depois, sei que mesmo com as possibilidades de uma loteria, é infinitamente mais provável meu filho vir através de uma FIV do que através de uma ligação do fórum...

NOVA FIV: Em Janeiro estamos lá!

7 comentários:

Val disse...

Oi Dalila, fiquei impressionada com seu relato não conheço a fundo esse mundo chamado adoção.

Bom tenho um amigo, que adotou dois filhos antes da lei nova, sendo o primeiro um bebê (menino) e o segundo uma menina de 03 anos.
Ele comentou que foi buscar os dois filhos no Paraná e sempre morou em Jundiaí/SP.
Quis primeiro um bebê para viver isso, depois poderia ser a partir de 03 anos.
Levou em media 2 anos e meio, para receber cada um e o mais velho sabe que é adotado e a menina ainda nao por ser nova, mas o mais velho sabe dela também. Ele conta como eh dificil, até com coisas simples do tipo porque a senhora não tem foto gravida de mim, isso a bebe de 04 anos hoje pergunta. Mas ele está feliz.

Bom já mandei os dados do médico para seu email. grande beijo mamys

Tatiana Brum disse...

Voltei no teu blog!
Adorei o post da adoção. É bem como você falou...mto burocrático. Esperam a criança ficar grande e fora da faixa etária que todos procuram, para aí sim, liberá-las. Ora se a familia já fez o que fez (porque me desculpe, quando chegam a retirar da familia pela primeira vez, não era pouca coisa)ainda merecer ter de volta o filho? A criança poderia ser poupada desse duplo sofrimento...mas ...Brasil...é Brsil. Um lástima!
Querida, desculpa o desabafo.

Um abração pra vc!

Tati
http://projetobebedatati.blogspot.com/

chaverdecomlimao disse...

Dá, que triste isso, né? Tantas crianças voltando aos lares porque a justiça resolveu dar uma segunda chance à mãe que rejeitou o filho durante toda a gravidez e mesmo antes dela.
Minha tia estava na fila da adoção, há 10 anos atrás, e chamaram ela para ver um bebê recém nascido. Ela era a próxima da fila. Ela foi e se apaixonou pela criança. Quando estava tudo pronto para levar o bebê para casa, a juiza FDP resolveu dar mais uma chance à mãe que foi convencida pela avó a ficar com a criança. Aí minha tia desistiu. Vendeu todo o enxoval que tinha há anos. Se desiludiu. Dois meses depois apareceu outra criança e deu tudo certo. É a criança mais doce e meu afilhado!
Mas concordo com você que os casais tem que ter direito a escolher o perfil da criança, pois como a Ane disse, são, antes de tudo, filhos da razão. PRecisam estar num lar onde são amados, aceitos e sem possibilidade de devolução, o que acontece muito.
Minha irmã é assistente social e vou perguntar pra ela como se pode fazer e se é possível conseguir uma criança... pelo menos vou sondá-la... para ver como é na cidade onde ela mora... cidadezinha pequena, interior, sabe como é... de repente rola!
Beijos e boa sorte na FIV, na adoção e em tudo!

Claudia Martins disse...

Dalila, é tudo muito desgastante, burocrático, revoltante, desanimador...
Queria falar com vc, tem msn, ou face, ou e-mail.
Bjs.

Rose disse...

Dalila sei do q vc fala....uma prima minha passou por isso...e foi dramatico.... ai ela resolveu adotar de forma 'à brasileira...rs mas no caso...foi acordo feito com a mae do bebe....q depois de dar a bebe foi embora pára o norte. Passado uns 4 meses, minha prima querendo legalizar, com medo de tomarem dela...ADVIN HA....A JUSTIÇA TOMOU, E AINDA DISSE...VC ENTRA NA FILA DE ESPERA COMO QUALQUER OUTRO, ANTES VAMOS VER SE PARENTES DE SAGUE, QUEREM FICAR COM ELA. Foi um trauma....muito choro muito sofrimento.... e como vc ela voltou a FIV.... e hj ela tem 3 meninos...dois de uma FIV e um naturamente!

Bjokinhas

Dalila disse...

Ahh, Rose! Já ouvi um monte de relatos assim e morro de medo disso! Já pensou? Que horror!

Tatiana, concordo contigo. Duplo desgaste, risco para a criança, etc...

Oi Bibi, me fale sim, mas veja o post da Rose acima. Morro de medo disso acontecer, então sei que vou ficar quietinha esperando a ligação... Alias, esperando minha FIV!

Girls, não desanimem, em algumas comarcas diz que o negocio funciona, aqueles que desejam um filho adotivo, devem tentar. Mudar as leis não podemos, mas podemos ir tentando descobrir o que funciona, como, onde...

Vou pôr outro post de umas novidades que eu soube hoje...
Bjs

Tati disse...

Que triste toda essa situação.Não tem como não desanimar desse jeito.
Mas hoje em dia , ainda existe muita adoção "por debaixo dos panos".Sempre ouvimos falar algo sobre fulano que foi buscar uma criança em alguma cidade distante ...acho que deve ser o meio mais rápido , mas que também não deve ser fácil.

Janeiro está perto , vamos torcer para que tudo de certo!Vai dar!
Um beijão